O autor de Bodas de osso

Quando vi a notícia da morte de Paulo Bentancur no Facebook, eu não acreditei, não queria crer. Paulo, poeta maior, sua vida menor contrastava com a grandeza de seu talento.

Dificuldades materiais eram o grande entrave da sua história como homem, pai, cidadão, dilema que nunca conseguiu, ou conseguiria resolver – não era do tipo de agradar a vizinhança, ainda que fosse de fragilidade e delicadeza extrema.

Experiente na artesania poética, não escrevia bobagens e, apesar de toda a resistência do ambiente à sua loucura e inventividade, ele produzia textos belíssimos, dignos de reconhecimento por parte do meio literário.

Meio literário – o que é isto, afinal, no Brasil?    20884048

Paulo se calaria diante da questão. Ele não tinha jeito para o real, para a secura humana.

Me revoltei ao saber de sua morte. Pensei: o Brasil matou Paulo. É isto: O Brasil mata seus poetas. E quem é o Brasil neste caso?

É toda a galera que ignorou o Paulo, que o desprezou. É o meio literário cheio de camundongos e ratazanas, dotados de intelectos medíocres e vaidades assassinas, unicamente  preocupados com seus interesses – que se dane a arte, essa coisa de elite!

Eu costumava enviar livros de colegas para o Manoel de Barros. Muito raro ele elogiar algum. Sobre Bodas de osso, ele me disse: este cara é bom!

Pois é, Paulo. Tanta gente procurava o poeta Manoel para ganhar um elogio, uma frase que servisse de referência ao autor em busca de reconhecimento.

Ele não te escreveu a tal frase, mas ela está viva em mim. E a repito constantemente para que não morra: este cara é bom!!! Viva, Paulo, na agonizante poesia brasileira.

 

Cida Sepulveda

15/09/16

Facebook


Leave a Reply

Your email address will not be published.